Fui 8 anos editora de Polícia, tempo para desenvolver um gosto refinado e diferenciar bons repórteres e bons repórteres de polícia. Uma vez, cheguei ao jornal e o novo colega me antecipou que o dia estava fraco. “Nada mesmo?”, insisti. “Só uma sogra que deu um tiro na nuca da nora de 17 anos lá em Viamão”, disse, quase bocejando. Como meu manual de redação veta agressão no local de trabalho, só o ameacei de arrancar as duas orelhas. Correu para o hospital onde a menina estava e saiu fisicamente ileso do confronto editorial, mas foi alvo de patadas por uma semana. Até que a pauteira pediu “tu ainda está brava, né? Mas pega leve, o guri é novo”.
Hoje, tenho um correspondente que é repórter-de-polícia, assim, substantivo composto. Teve a honra de ser ameaçado pelo PCC. É um grande repórter, mas um redator no mínimo incomum. Olha o lead:
Um crime trágico movimenta nesta manhã a cidade de Franca, no interior de São Paulo, e já deixa o município em choque. As primeiras informações divulgadas pela polícia apontam que um rapaz de 45 anos teria tido um ataque de loucura dentro da própria casa na Rua Ouvidor Freira, no Centro. O motivo não foi informado. Armado com um revólver, ele matou a mãe, baleou a esposa, os três filhos e, depois, se matou.
Meu título: Tresloucado, rapaz de 45 anos mata mãe, atira na família e se suicida
ERRAMOS: Repórter 1 corrige: foi em Guaíba, não Viamão. Lembrei também que um dia antes de ser morta pela sogra, a menina apanhou do namorado. Gente da estirpe do Lindemberg.